Associação Brasileira de Antropologia

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Júlia Nascimento de Souza
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Graduanda

A cultura Palestina constitui-se em meio à disputa por direitos e à luta por espaço, seja ele cultural, político ou geográfco. Tal disputa por legitimidade entre dois povos que enxergam a si mesmos como merecedores resultou, entre outras coisas, na desapropriação geográfca forçada de uma grande parcela do povo palestino. A perda não só de territórios mas também de legitimidade e representatividade política foi responsável por moldar traços em sua identidade nacional. Tendo em vista este contexto e entendendo a importância e o poder da representatividade, este trabalho propõe-se a analisar a obra Palestina, do jornalista e quadrinista Joe Sacco, a fm de identifcar sua relação com estudos acadêmicos sobre a identidade nacional palestina.

Para tanto, foram adotados os conceitos de identidade nacional estabelecidos por Stuart Hall (1992) e Manuel Castells (1996), que compreendem-na como uma construção que se dá a partir de fatores como geografa, instituições de poder, memórias coletivas, história, entre outros. Entendendo a importância dos fatores históricos para a compreensão da identidade nacional de um determinado grupo, tomou-se como base os trabalhos de autores cujo objeto de pesquisa é a história palestina, com principal destaque a Rashid Khalidi, com sua obra Palestinian Identity (1997). Todas estas informações foram consideradas com o intuito de possibilitar a construção de uma análise o mais distante possível de uma interpretação orientalista, ou seja, uma visão generalista e idealizada baseada em estereótipos advindos de olhares ocidentais sobre o oriente, de acordo com Edward Said (2007). Assim, estabeleceram-se paralelos entre trechos destacados da obra de Sacco e considerações de pesquisadores da cultura palestina. Para fns didáticos, dividiu-se o texto em seções de acordo com as características culturais palestinas analisadas, sendo estas o Nakba, o apego às origens, a resistência, a identifcação com facções e a Intifada.

AL-NAKBA, A GRANDE CATÁSTROFE

Não se pode falar sobre a identidade nacional palestina sem comentar o episódio acontecido em 1948 que pode ser considerado um divisor de águas na história palestina. “A Grande Catástrofe”, ou al-Nakba, é o nome dado pelos palestinos à diáspora acontecida após a instituição do Estado de Israel, quando cerca de 711.000 palestinos residentes no território que passou a pertencer a Israel foram forçados a deixarem suas terras e viverem em situação de refúgio. Sacco evidencia as péssimas condições de sobrevivência encontradas nos campos de refugiados, com a afrmação “alguns dos buracos mais negros do mundo estão a céu aberto”. As páginas 146 e 147 da obra analisada trazem uma visão panorâmica do capo de Jabalia, e o que se vê é um local repleto de lama, lixo, e pedras sobre os telhados para evitar que estes voem com as tempestades. É notável o fato de Sacco produzir suas ilustrações com base em fotografas tiradas nos períodos em que o autor esteve na Palestina, o que lhe permite certo grau de acuidade, conforme pode-se observar nas imagens a seguir.

No trecho destacado a seguir, observa-se uma representação emotiva e humani- zada, com a figura do personagem representada em close, enquanto relata sua experi- ência. O personagem conta sobre a expulsão que sofreu junto de sua família, e pontua a  história  evidenciando  sua  dor  com  a  frase  “foi  um  dia  negro  quando  deixei  minha terra.” Conta também que em certa ocasião recebeu autorização israelense para visitar sua antiga terra, a qual encontrou deserta. Nestes quadros, o autor representa o desejo de retorno do personagem e de sua família, conferindo dramaticidade ao ilustrá-los em plano contra-plongée: ao utilizar este ponto de visão, o autor traz uma carga sentimental  à  cena  e  coloca  os  personagens  em  posição  de  força,  em  vista  da  desapropriação que sofreram. O olhar distante dos personagens reforça essa conotação, além de trazer suspense à cena, criando uma expectativa sobre o que estariam observando, expectativa esta que em seguida é sanada pelo quadrinho seguinte, o qual mostra a família diante de sua terra já deserta.

A partir deste trecho (e de outros ao longo da obra), é possível perceber não apenas a habilidade técnica do autor, mas também sua sensível percepção do assunto, formada a partir das entrevistas que realizou.

 

APEGO ÀS ORIGENS

Em entrevistas, Sayegh (2011, p. 07) constatou que a predominância da identidade palestina permanece forte nos jovens refugiados no Líbano, mesmo que estes tenham tido pouco ou nenhum contato com sua terra de origem. Sacco representa esta mesma característica: segundo o autor, as crianças dos campos de refugiados são ensinadas a diferenciar o lugar de onde vêm (vilarejos destruídos pelos sionistas em 1948) do lugar onde moram (Campo de Nuseirat, Quarteirão 2, por exemplo). Este é apenas um dos muitos trechos presentes na obra na qual o autor evidencia o orgulho e forte apreço por parte dos palestinos em relação à sua terra e cultura.

RESISTÊNCIA

A resistência é um forte marcador identitário na ideia de uma nação palestina, uma vez que, historicamente, este povo encontra constantemente a necessidade de lutar por aceitação e legitimidade perante a comunidade internacional, e inclusive defender a  própria existência.

No trecho abaixo, Sacco utiliza expressões fortes nos rostos dos personagens e utili- za-se de ironia para evidenciar o forte envolvimento das pessoas com sua causa, dizendo: “Eles estão gritando como se suas vidas dependessem disso!” (considerando que o motivo de seu protesto de fato tem importância vital e influência direta em seus cotidianos).

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IDENTIFICAÇÃO COM FACÇÕES

Por volta de 1970, a filiação a facções de resistência já caracterizavam a expressão mais dominante de “palestinidade” e o meio mais genuíno de manifestar pertencimento nacional. Habitantes de campos de refugiados identificavam-se uns aos outros de acordo com suas posições em determinados grupos de resistência, além da conotação quase que familiar que os membros de uma mesma facção adquiriam entre si, gerando forte lealda- de dentro do grupo (SAYEGH, 2011, p. 04-05).

No contexto temporal em que se insere a obra Palestina de Joe Sacco, no início da década de 1990, as filiações aos principais partidos Hamas e Fatah apresentavam ainda grande popularidade entre os jovens palestinos. Um exemplo deste forte envolvimento com as filiações pode ser visto na passagem abaixo, em que uma música do Fatah é can- tada a plenos pulmões por homens em uma festa pré-casamento, que diz: “Para todas as pessoas que nos odeiam, como é doce morrer pela Palestina. A Fatah não tem medo da morte, e a Fatah vai libertar a Palestina”. Sacco enfatiza a forma passional como cantam a música dizendo que “cantam como se quisessem arrancar o telhado”.

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A INTIFADA

Impossível  tratar  do  assunto  sem  abordar  o  episódio  conhecido  como  Intifada, o  principal  levante  popular  da  história  palestina,  caracterizado  pelo  combate  desigual entre civis palestinos e militares israelenses, no qual palestinos enfrentavam as tropas armadas israelenses arremessando pedras e outros pequenos objetos que estivessem ao seu alcance. Tornou-se um símbolo nacional palestino por conta do forte sentimento de pertencimento  e  união  gerado  entre  aqueles  que  participaram,  além  de  representar  a intensidade de seu desejo de defender sua cultura.

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Acerca  deste  tema,  Sacco  constrói  uma  representação  rica  em  elementos  chave: vários jovens cantando, gritando e recolhendo pedras e garrafas para usarem como mu- nição, com faixas, bandeiras e um megafone, ateando fogo em pneus e bloqueando a rua. Neles, observa-se expressões faciais fortes, o sinal de vitória feito com os dedos em “V” e símbolos nacionalistas como a bandeira palestina e o keffiyeh (lenço de estampa xadrez que tornou-se símbolo da luta palestina ao ser utilizado publicamente por Yasser Arafat). Por fim, a cena mais icônica da Intifada, na qual os personagens aparecem correndo para lançar pedras e voltando para se proteger. Mais uma vez, percebe-se o esforço do autor para utilizar recursos visuais para demonstrar com o máximo de verossimilhança o sen- timento de seus personagens.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

É perceptível o mérito de Joe Sacco pelo reconhecimento que recebeu por seu tra- balho  enquanto  jornalismo  em  quadrinhos,  visto  que,  em  comparação  com  o  levanta- mento teórico previamente estudado, mostrou-se acurado nas informações que veiculou. O autor mostrou-se capaz de construir uma representação próxima à construção da iden- tidade nacional palestina, sem esbarrar em visões orientalistas (SAID, 2008), ainda que na posição de estrangeiro. De fato, conforme afirmado pelo próprio autor, a abordagem assume um caráter assumidamente parcial, como dito no início deste trabalho, e segue até o fim de sua obra comprometido com seu objetivo de retratar o “lado palestino da história”, com algumas exceções em que dá voz a personagens israelenses.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Júlia Nascimento de Souza
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Graduanda
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