O direito da Fiel
Performances políticas de torcedores em protesto
DOI:
https://doi.org/10.48006/2358-0097/V11N1.E111008Palavras-chave:
futebol, torcida, performance, eleição, cidadeResumo
No presente artigo investigo o universo do futebol em suas interdependências com outras figurações sociais, políticas e culturais. Com foco na atuação das torcidas organizadas, em especial dos Gaviões da Fiel, baseio-me em uma etnografia que fiz nos protestos ocorridos durante as últimas eleições do Sport Club Corinthians Paulista, realizadas em 25 de novembro de 2023. Recupero no percurso interpretativo a tradição da Democracia Corinthiana para testar a noção de performances político-torcedoras, sublinhando as estratégias traçadas e empregadas pelos torcedores corinthianos, no presente, a fim de driblar as barreiras institucionais que se lhes apresentam, como a ausência de direito a voto nos assuntos do clube. Em diálogo com as sociologias eliasiana e goffmaniana, bem como com a antropologia brasileira das práticas esportivas, a pesquisa apreende um torcer que se vale e se apropria da cidade, ocupando-a espacial e simbolicamente, para além dos limites da arquibancada. Os resultados que alcancei sugerem que as performances político-torcedoras são ações e expressões coletivas de descontentamento acerca de hierarquias e desigualdades existentes tanto no universo do futebol quanto em outros âmbitos sociais.
Referências
ALCHORNE, Denaldo. 2018. Pra Frente Brasil!. São Paulo: Intermeios.
BARENCO, Bruna. 2023. Do otimismo à tragédia: A memória das derrotas da seleção brasileira em 1982. Ars Historica, 26: 254-274.
CALDAS, Waldenyr. 1994. Aspectos sociopolíticos do futebol brasileiro. Revista USP, 22: 40-49. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i22p40-49
CALDAS, Phelipe; ANDRADE, Marianna; SOUZA JUNIOR, Roberto de Alencar. 2022. Entre Torcidas Organizadas e Torcidas Antifascistas: considerações sobre as políticas do torcer e suas resistências. FuLiA/UFMG, 7(1): 52-81. DOI: https://doi.org/10.35699/2526-4494.2022.35626
CAMPOS, Flavio de; ALFONSI, Daniela. 2014. “Apresentação”. In: CAMPOS, Flavio de; ALFONSI, Daniela (Orgs.). Futebol Objeto das Ciências Humanas. São Paulo: Leya, p. 8-21.
CRESSWELL, Tim. 2009. “Seis temas das mobilidades”. In: CARMO, Renato Miguel do; SIMÕES, José Alberto (Orgs.). A Produção das Mobilidades. Redes, Espacialidades, Trajetos. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, p. 25-40.
DAHINDEN, Janine et al. 2023. Placing regimes of mobilities beyond state-centred perspectives and international mobility: the case of marketplaces. Mobilities, 18(4): 635-650. DOI: https://doi.org/10.1080/17450101.2023.2218591
DAMATTA, Roberto. 1994. Antropologia do óbvio: notas em torno do significado social do futebol. Revista USP, 22: 10-17. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i22p10-17
DAMATTA, Roberto. 1982. Futebol: Ópio do Povo x Drama de Justiça Social. Novos Estudos CEBRAP, 1(4): 54-60.
DAMO, Arlei Sander. Futebol e estética. 2001. São Paulo em Perspectiva, 15(3): 82-91. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-88392001000300011
DAMO, Arlei Sander. 2008. Dom, amor e dinheiro no futebol de espetáculo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 23(6): 139-150. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-69092008000100009
DIAS, Luiz; FARINA, Michelle. 2016. Preto no branco: A Democracia Corinthiana nas páginas do jornal Folha de São Paulo. Recorde, 9(2): 1-21.
DURKHEIM, Émile. 2003 [1912]. Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes.
ELIAS, Norbert. 1994 [1939]. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar.
ELIAS, Norbert. 1978. What is sociology?. Nova York: Columbia UP.
ELIAS, Norbert; SCOTSON, John. 2000 [1965]. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de Janeiro: Zahar.
EMIRBAYER, Mustafa. 1997. Manifesto for a Relational Sociology. American Journal of Sociology, 103(2): 281-317. DOI: https://doi.org/10.1086/231209
FERNANDES, Daniel. 2017. “Futebol e política se discutem”: o caso da Democracia Corinthiana. Trabalho de Conclusão de Curso em Ciência Política, Universidade de Brasília, Brasília.
FLORENZANO, José Paulo. 2015. “A Democracia Corinthiana e os Gaviões da Fiel”. In: HOLLANDA, Bernardo Buarque de; NEGREIROS, Plínio (Orgs.). Os Gaviões da Fiel: ensaios e etnografias de uma torcida organizada de futebol. 7Letras: Rio de Janeiro, p. 95-112.
FREIRE-MEDEIROS, Bianca. 2024. A metrópole do capital de rede: mobilidades socioespaciais e iniquidades urbanas. Cadernos Metrópole, 26(60): 423-442. DOI: https://doi.org/10.1590/2236-9996.2024-6002.e
GASTALDO, Édison. As relações jocosas futebolísticas. 2010. Futebol, sociabilidade e conflito no Brasil. Mana, 16(2): 311-325. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-93132010000200003
GIGLIO, Sérgio; SPAGGIARI, Enrico. 2010. A produção das ciências humanas sobre futebol no Brasil: um panorama (1990-2009). Revista de História, 163: 293-350. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9141.v0i163p293-350
GOFFMAN, Erving. 1985 [1956]. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes.
GUEDES, Simoni. 2023 [1977]. O futebol brasileiro: Instituição zero. São Paulo: Editora Ludopédio.
HELAL, Ronaldo. Futebol, Cultura e Cidade. 1996. Logos, 5: 5-7.
HOLLANDA, Bernardo Buarque de. 2009. Futebol, arte e política: a catarse e seus efeitos na representação do torcedor. Organizações & Sociedade, 16(48): 123-140. DOI: https://doi.org/10.1590/S1984-92302009000100006
HOLLANDA, Bernardo Buarque de. 2015. “O rabo do foguete: civilização e barbárie em uma torcida organizada de futebol”. In: HOLLANDA, Bernardo Buarque de; NEGREIROS, Plínio (Orgs.). Os Gaviões da Fiel: ensaios e etnografias de uma torcida organizada de futebol. 7Letras: Rio de Janeiro, p. 21-45.
HOLLANDA, Bernardo Buarque de; LOPES, Felipe Paes. 2018. Ódio eterno ao futebol moderno: poder, dominação e resistência nas arquibancadas dos estádios da cidade de São Paulo. Tempo, 24(2): 206-232. DOI: https://doi.org/10.1590/tem-1980-542x2018v240202
HUIZINGA, Johan. 2008 [1939]. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva.
LÉVI-STRAUSS, Claude. 2008 [1962]. O pensamento selvagem. Campinas: Papirus.
MARRA, Pedro. 2017. “Ei, juiz, vai tomar no cu”: políticas torcedoras e do futebol e sonoridades de xingamentos em performances masculinas. FuLiA/UFMG, 2(2): 55-80. DOI: https://doi.org/10.17851/2526-4494.2.2.55-80
MARRA, Pedro. 2023. Por que torcidas organizadas de um mesmo time nem sempre cantam em uníssono no Brasil? – violência, políticas sônicas e práticas torcedoras. Recorde, 16(1): 1-24.
MARTINS, Mariana Zuaneti; REIS, Heloisa Baldy dos. 2014. Cidadania e direitos dos jogadores de futebol na Democracia Corinthiana. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 28(3): 429-440. DOI: https://doi.org/10.1590/1807-55092014000300429
MAUSS, Marcel. 2003 [1934]. “As técnicas do corpo”. In: Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, p. 399-422.
OLIVEIRA, Eric Monné Fraga de. 2021. O ópio do povo? O futebol e as manifestações políticas no Brasil entre 2013 e 2020. Sociedade e Cultura, 24: 1-39. DOI: https://doi.org/10.5216/sec.v24.65892
REIS, Daniel Aarão. 2014. Ditadura e democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar.
SARMENTO-PANTOJA, Augusto. 2020. Mais branco do que preto na ditadura militar brasileira: a Democracia Corinthiana, o sindicalismo, a rebeldia e o rock and roll. FuLia/UFMG, 4(3): 42-55. DOI: https://doi.org/10.17851/2526-4494.4.3.42-65
SEVCENKO, Nicolau. Futebol, metrópoles e desatinos. Revista USP, 22: 30-37. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i22p30-37
SÓCRATES; GOZZI, Ricardo. 2002. Democracia Corintiana: a utopia em jogo. São Paulo: Boitempo.
TOLEDO, Luiz Henrique de. 2020. Balanços bibliográficos e ciclos randômicos: o caso dos futebóis na antropologia brasileira. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, 94: 1-32.
TOLEDO, Luiz Henrique de. 1993. Por que xingam os torcedores de futebol?. Cadernos de Campo, 1(3): 20-29. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v3i3p20-29
TOLEDO, Luiz Henrique de. 2010. Torcer: a metafísica do homem comum. Revista de História, 163: 175-189. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9141.v0i163p175-189
TOLEDO, Luiz Henrique de. 1996. Torcidas organizadas de futebol. Anpocs: Campinas.
TORRI, Danielle; VAZ, Alexandre Fernandez. 2006. Do centro à periferia: sobre a presença da Teoria Crítica do Esporte no Brasil. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 28(1): 185-200.
VALLADARES, Licia. 2007. Os dez mandamentos da observação participante. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 22(63): 153-155. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-69092007000100012
VIDAL, Candice. 2023. Mobilidade e cidade: epistemologia e pesquisa. Tempo Social, 35(1): 217-236. DOI: https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2023.196609
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Novos Debates

Esta obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Attribution 3.0 Unported License.
Política de Acesso Aberto
Somos uma revista de acesso aberto. Não cobramos pela publicação de artigos ou pelo acesso aos fascículos da revista.
Todo o conteúdo da revista, exceto indicação contrária em materiais específicos, está licenciado sobre Atribuição 3.0 Creative Commons Brasil (CC BY 3.0 BR).
Você tem o direito de:
– Compartilhar — copiar e redistribuir o material em qualquer suporte ou formato
– Adaptar — remixar, transformar, e criar a partir do material para qualquer fim, mesmo que comercial.
– O licenciante não pode revogar estes direitos desde que você respeite os termos da licença.
De acordo com os termos seguintes:
– Atribuição — Você deve dar o crédito apropriado, prover um link para a licença e indicar se mudanças foram feitas. Você deve fazê-lo em qualquer circunstância razoável, mas de nenhuma maneira que sugira que o licenciante apoia você ou o seu uso.
– Sem restrições adicionais — Você não pode aplicar termos jurídicos ou medidas de caráter tecnológico que restrinjam legalmente outros de fazerem algo que a licença permita.